À Corajosa

Uma formiga leva com esforço o peso
Duas vezes superior ao seu

E, se esmagada, ainda tenta…
Ela é mais forte porque sabe que é capaz
Nada deve detê-la!

Um segundo esmagamento poderá até matá-la
Ela morrerá, corajosa, revivendo
A potência
Da covardia humana.

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Diego Rbor
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Fotografia: Ana Castello

 

Conservador Barato

Toda lida é importante

A arte vence a ignorância
Porque entende bem Deus
Triunfa em nó a piedade
Respeita questionamento
Agradece e aperfeiçoa-se

Têm as que sabem disso
Têm as que se esquecem
E quem finge não saber
Mas todas as vidas estão

Quem sabe, questiona-se
Quem esquece, tem carma
Os que fingem, perecem

Se todes somos um, então
Quem contará a história?

elenão

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Texto: diego rbor
Arte Visual: ® f.t.p.

TransAgro

A caridade está mais cara

Tanta comida é jogada pra fora
Ou porquê vence ou porquê sobra
Tanta gente tá pedindo esmola
Sem teto vale menos que uma bola

Sobre viver, sobre viventes

Já estamos sem educação
Tomaram a nossa união
Servindo aos ricos
Não nos damos as mãos

Terra sente falta com razão

Pobre de nós pobres
Comendo agrotóxicos
Todo dia transgênicos
Na ração que satisfaz
E judia a refeição

Cuide-se como puder

Viver é top
Morrer tá pop!

ftp

Texto: diego rbor
Arte Visual: ® f.t.p.

funcionários e desempregados

Boa tarde, batalhadora, batalhador, peço que me leia, serei breve, por favor
Trabalhador, já fui ofice-boy, estoquista, auxiliar, estagiário, vendedor…
Hoje sou um escritor, ganho a vida refletindo em literaturas; Poesia é minha maneira de vencer a dor

Trabalhadores, somos todos guerreiras e guerreiros, e o que nos diferencia são as nossas lutas nas variadas labutas do existir
Estou aqui te convidando para comigo refletir
E encorajar os nossos sonhos em cada decisão
Somos brasileiras e brasileiros, aqui não é um país de formar patrão…
Empregados são tratados como tapados, vendados, obturados
E não é para isto que fomos criados, a vida não nos fez para sermos tirados de otários
Temos ciência, sapiência, paciência e consciência
Não deixe seu salário manipular a sua competência
“Se tens um sonho, foque e seja
Se tens um dom, invista, proteja” – É o que a Luz me diz

Os mais ‘ricos’ do que nós, não querem nos ver tão ricos quanto eles
Eles pensam que nossas famílias, pobres, não merecem as felicidades existentes

Enquanto nós trabalhadores, sabemos mais sobre merecimentos
Construímos casas, barracos, favelas, carregamos os cimentos
Políticos de direita usam, nós, pobres como se fossemos jumentos
Nas rachaduras dessa sociedade candura que ainda quer a volta da ditadura
Para matar ainda mais os sonhos de muitos de nós, pobres de alma dura
Eu não aguento mais tanta injustiça!

A humildade me ensinou a pegar na terra e a plantar
A humildade me faz entender que não preciso só comprar, comprar, comprar
Está tudo na terra, esta que os ricos insistem em nos tirar
Está tudo na água, esta que políticos insistem em privatizar
Não podemos deixar! Não podemos tolerar!
Ou levantamos a cabeça ou eles irão nos ceifar
Assim como fizeram com os nossos ancestrais
Há pouco mais de 500 anos atrás

Estamos no segundo semestre de um 2020 pandêmico:
Os 42 bilionários do Brasil aumentaram a própria riqueza em 27 POR CENTO durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos
Às custas de nós, pobres
Do nosso esforço competente em enriquecer presidente branco que nem liga pra gente, mas liga pros ricos e milionários brancos
Enquanto alguém achar normal o branco cada vez mais rico e o preto cada vez mais pobre, tudo vai piorar

Estamos numa crise criada pelos ricos, brancos, em suas viagens e banquetes nojentos, caros!
Não respeitam nem os animais, imagine os nossos ancestrais vermelhos!

Por isto escrevo, pois espero nos unir um dia, caro trabalhador e cara trabalhadora
Porque se hoje eu escrevo é porque tive um professor, uma professora
Se hoje escrevo é porque fui parido, cuidado ao lado de um povo sofrido
E não quero que a gente morra sem ter no mínimo evoluído

Que seja em comunhão

Agradeço pelo seu tempo em me ler
Conte comigo rumo à revolução.

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Diego Rbor

fdp
® f.t.p.

Maria José, minha avó!

Hoje é dia dos avós e senti vontade de escrever um pouco sobre a minha relação com a querida avó Maria, a única mais ligada a mim.

Saudade sinto de minha avó
Ativa, baiana, sou sua cara
Um dia me contou histórias
De seu melhor amigo macaco prego
Andava a cavalo com ela
Deixou ele para vir pra SP
E pouco foi feliz aqui
Sorria timidamente, ela

Sempre curti visitar meus avós, a alegria quando ela nos avistava descendo a rua chegando até sua casa, motivava corridas ligeiras ladeira abaixo, rumo ao abraço.
Depois da adolescência, comecei a negar as minhas idas até lá; passei a achar longe, e telefonava para compensar a ausência e aos poucos foram se tornando raras as vezes no ano em que eu a visitava, então ela começou a ir me visitar.

No abraço demorado, o carinho apertado; era um dos melhores programas da vida passar o final de semana na companhia deles, que mensalmente iam até Taipas para abraçar eu, minha mãe e meus dois irmãos.

Os meses ficaram mais longos quando eles deixaram de nos visitar. Minha avó comentou por telefone de uma queda que meu avô teve na rua, isto apertou muito o meu coração. Passei a visitá-los novamente com frequência.

Mas um dia ele passou mal, foi internado. Um tempo depois, faleceu.
Estavam há 56 anos casados.
Minha avó lutou contra a solidão, teve um AVC e parte de seu corpo ficou imóvel.

A pedido da minha mãe, topou ir morar conosco. Ficamos vizinhos por um andar; ela no térreo, com a minha mãe e irmão, eu em cima com minha irmã e os cachorros. Pude me aproximar ainda mais de minha avó. Tomávamos café da manhã juntos diariamente, ao chegar tarde da noite, da faculdade, sempre passava em sua casa para saber como desenrolou o dia. Quando ela já estava dormindo, eu beijava o seu rosto e subia pra casa.

Fiquei sem trabalho durante 4 meses e cuidei de minha avó; levantava-a da cama para acessar os cômodos, cozinhava para ela os pratos que gostava, assistia as novelas e comentávamos, indignados, sobre o enredo das tramas artísticas que imitavam a vida. E enquanto ela organizava a gaveta de meias, me contava histórias sobre sua infância. Uma destas histórias é a do seu melhor amigo macaco prego, que andava a cavalo com ela, na Bahia.

Minha avó gostava de plantas, e eu amo as plantas.
Um dia li na internet o poder das plantas e comentei dos milagres que as ervas são capazes de proporcionar ao corpo humano. Eu já seguia a kabbalah e decidi unir a tecnologia da mente com a medicina natural. Minha avó embarcou comigo nessa sabedoria. Colhi a babosa, fomos pra lavanderia: Ela sentada numa cadeira e eu sentado no chão, ergui a sua perna inerte sobre as minhas e comecei a massageá-la, de olhos fechados, meditando os melhores sentimentos. Ao abrir os olhos num determinado momento, vi que minha avó estava com os olhos fechados, continuei a massagear, emanando Luz para aquela guerreira que eu tanto amava.
Após dias e dias massageando e meditando, certa tarde ela gritou e eu tomei um susto! Gritou de alegria comemorando a sensação de mover o próprio pé, que estava paralisado desde o AVC. Vibramos, felizes! Levamos a arte da cura mais a sério, ela melhorava aos poucos, inclusive conseguia andar sozinha!

Foi a minha primeira revelação do quanto a fé pode influenciar na vida. E não falo da fé religiosa, e sim da fé espiritual.

Após meses contribuindo para os cuidados de minha avó, voltei a procurar um trabalho e consegui. Minha mãe contratou uma amiga dela para continuar os cuidados e então a nossa rotina mudou. Minha avó insistiu em voltar a morar na antiga casa, onde viveu com meu avô. Nos desaproximamos novamente no decorrer dos meses.

Eu achava que o emprego era mais importante que tudo, faltei em vários aniversários. O sistema é bruto e tenta nos tornar assim.

Um dia, no trabalho, recebi um telefonema: era minha tia dizendo para eu ir no hospital Mandaqui visitar minha avó, que havia sido internada. Saí correndo ao seu encontro. Várias lembranças no trajeto do ônibus que mais parecia um navio, de tão demorado!

Chegando no quarto do hospital, fiquei despedaçado com a situação em que vi minha avó, inconsciente, com a boca seca, olhar turvo; tentava me dizer algo e não conseguia. Fui atrás de um algodão e molhei com água a sua boca, para hidratá-la. A enfermeira pediu que eu me retirasse, pois ‘o horário de visita terminou’.

Na volta pra casa recebi outro telefonema, informando a sua partida. Não consigo expressar o tamanho da dor que eu senti.

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Três fatos que guardo com carinho:

As páscoas que meus avós chegavam em casa com os ovos de chocolate mais simples que tinham nos armazéns, eram os mais saborosos na época.

Um dia, olhando o seu RG, notei que no lugar da assinatura estava escrito em letra maiúscula a palavra ANALFABETA. E a questionei, “como uma pessoa tão sabida e inteligente poderia ser chamada de analfabeta?”. Ela riu. Meses depois se matriculou numa escola perto de sua casa e começou a estudar, aos quase 70 anos.

Eu era adolescente, já trabalhava, e fui passar um fim de semana com ela e meu avô. Numa segunda-feira bem cedo, acordei para me preparar pro trabalho, ela acordou para preparar o café, meu avô dormia. Antes deu sair pro trabalho, sentei com ela para tomar o café. Agradeci e quando olhei em seus olhos os vi marejados, ela abaixou a cabeça e uma gota caiu em seu colo. O aperto em meu peito torceu-me os olhos a marejar igualmente. Nos observamos sem conseguir dizer uma só palavra. Na noite anterior eu descobria que fui adotado, após receber o telefonema de uma prima que não gostava de mim. Eu não contei pra ninguém sobre o telefonema, foi como se ela sentisse que algo estava errado. Me despedi e tomei meu rumo. Sentei no banco do ônibus e desabei a chorar.

Vó Maria tinha uma risada gostosa. Adorava fazê-la rir porque eu achava que ela sorria pouco.
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Onde quer que você esteja, minha vó, sinto-te perto e amo te amar e lembrar do que vivemos.

Com amor,

Diego Rbor

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Vó Maria e eu, 2010